Desacelere e seja mais feliz

A lógica do ‘acelerar para fazer mais coisas’ está com os dias contados. Quase ninguém mais consegue levar numa boa essa vida agitada da cidade. Até o antigo status de viver assim, sem tempo pra nada, vem murchando na sociedade, pode reparar. Não existe mais aquele consenso de que gente importante e poderosa é gente com a agenda lotada, que fica cancelando compromissos durante o dia, porque o anterior durou mais do que o tempo de deslocamento até o próximo. Af!

Aos poucos, já tem gente percebendo – e sentindo na pele – que pessoas bem sucedidas e com qualidade de vida são aquelas que têm mais autonomia para distribuir, ao longo do dia, trabalho, lazer e prazer. Chique mesmo é poder almoçar sem pressa numa quarta-feira, ou dar um passeio de bicicleta no parque depois da última reunião da tarde (que não se estendeu a ponto de inviabilizar seu compromisso com você), não é verdade?

Não dá para negar que, sim, as tecnologias da informação nos ajudam muito, especialmente no trabalho. Mas também é fato que, se deixarmos, elas tendem a nos fazer trabalhar sempre mais horizontalmente, expandindo nossas tarefas para todos os lados e reduzindo, assim, o tempo de atenção para cada uma delas. Em outras palavras, máquinas e ferramentas velozes (internet, celular e todo o kit que criamos para acompanhá-los) quase nunca promovem um aprofundamento, um mergulho (verticalização) ou dedicação mais centrada em um ou outro tema.

O resultado é curioso: além da sensação de respiração mais curta (a velocidade é tanta que quase não conseguimos mais respirar profundamente), ficamos também com a impressão de que, na verdade, nada foi feito, nada foi realizado. Corremos daqui prá lá, de lá prá cá, apagando incêndios, contendo problemas, mas quase nada construímos ou criamos… É claro! Não tivemos tempo para isso.

Voltando à necessidade/vontade de simplificar o dia a dia, ter menos tarefas significa ter a chance de realizá-las mais plenamente, de empenhar-se mais, de se dedicar de verdade. Simplificar a vida, nesse sentido, é saber excluir as atividades que são dispensáveis, que não merecem nosso tempo nem nossa energia. O grande lance não está em descobrir maneiras para fazer mais e mais coisas no mesmo espaço (já tão curto) de tempo. Isso é mais ou menos como ficar quebrando a cabeça para resolver o desafio da destinação do lixo, sem refletir para a necessidade de reduzir a geração dos resíduos… O problema não é saber encaixar tarefas em períodos cada vez mais apertados. É preciso escolhê-las mais criteriosamente, selecionar, ser capaz de dizer não.

Nada pode ser mais libertário, aliás, do que dizer não para algumas coisas: não pegar mais trabalho e comprometer o tempo com os filhos, não comprar roupas novas só para que os outros o vejam na moda, não trocar de carro ou de celular porque um modelo mais novo garantiria mais status no escritório… O que você considera, afinal, que é melhor para você, para sua vida?

Reduzir o ritmo das atividades significa incorporar mais qualidade nas ações definidas para o dia. Até a nossa respiração muda! Não é preciso ficar ofegante e ansioso durante uma reunião, porque o tempo está correndo e não vai dar para chegar na hora do próximo compromisso. Calma. Desacelere.

Muita gente tem notado que, no fim, não é produtivo (nem prazeroso) fazer tanta coisa ao mesmo tempo. Pense sobre isso. É realmente necessário passar no shopping no fim do dia para comprar mais um sapato? É realmente importante passar horas e horas nas redes sociais e não ter tempo para um almoço com um amigo? Você precisa fazer três cursos de idioma ao mesmo tempo? E que tal ler um livro para seu filho à noite, em vez de ficar ‘zapeando’ à toa na frente da tv?

Talvez o grande problema não esteja na falta de tempo, mas na má administração dele, nas distrações que inserimos em nossa rotina, sem perceber os efeitos negativos que elas nos trazem. Muitas vezes, confundimos “fazer muitas coisas” com “consumir muitas coisas”, algo que, de modo geral, tem uma conotação ainda boa neste mundo de vontades insaciáveis, mas que implica estresse, mais contas a pagar e, no final, menos satisfação, menos plenitude.

Gosto de um pensamento da tradição taoísta (de Lao-Tsé) que diz: “aquele que sabe possuir o suficiente é rico”. Peço licença para acrescentar: aquele que sabe fazer o suficiente é feliz. E, já que o assunto é tempo, termino por aqui, para convidá-lo a dar uma olhadinha na paisagem da janela (como fiz nesta foto) e sentir o cheiro delicioso da chuva que – finalmente! – chegou para melhorar o ar que respiramos – e, claro, nos chamar para uma pausa gostosa, um ritmo mais lento, um jeito mais manso de levar a vida.

Fonte: Planeta Sustentável